Alguns jogos modernos tentam esconder as próprias referências. Duskfade segue na direção contrária. Desenvolvido pela Weird Beluga e publicado pela Fireshine Games, o título abraça a identidade das aventuras em plataforma 3D que dominaram o início dos anos 2000.
A combinação de mundos coloridos, personagens caricatos, itens colecionáveis e movimentação ágil desperta uma nostalgia imediata. Entretanto, limitar Duskfade a uma simples homenagem ao PlayStation 2 seria ignorar o cuidado colocado em sua narrativa e na evolução das mecânicas ao longo da campanha.
Uma aventura sobre o tempo e aquilo que não volta
A história acompanha Zirian, um jovem que parte em busca da irmã desaparecida, Allira. Sua jornada o leva até uma misteriosa Torre do Relógio, em um universo dominado por engrenagens, ponteiros e mecanismos.
Zirian também enfrenta a morte do avô responsável por criar os irmãos. Como recordação, carrega Minutero, uma espada que se torna sua principal arma durante a aventura. O protagonista ainda recebe a companhia de Cuco, uma pequena ave mecânica que ajuda a equilibrar os momentos mais dramáticos com humor.
Apesar da presença constante de relógios, o jogo não constrói uma trama tradicional sobre viagens temporais. O tempo funciona como uma representação das perdas enfrentadas pelos personagens.
Os chefes reforçam essa proposta ao simbolizarem sentimentos como culpa, fúria, tristeza, solidão e agonia. Dessa forma, cada confronto também representa uma etapa do processo vivido pelo protagonista.
A história apresenta assuntos delicados dentro de uma aventura leve e acessível. A mensagem central é simples, mas eficiente: o passado não pode ser recuperado, porém ainda é possível decidir o que fazer com o tempo restante.
Duskfade é realmente parecido com Kingdom Hearts?
A aparência de Duskfade torna inevitável a comparação com Kingdom Hearts. O desenho do protagonista, a arma utilizada por Zirian e determinados elementos dos cenários lembram imediatamente a série da Square Enix.
Parte dos jogadores, no entanto, acredita que essa semelhança é muito mais visual do que mecânica. Em uma discussão no Reddit, uma pessoa que experimentou a demonstração afirmou não ter encontrado a mesma sensação de Kingdom Hearts, além da arma semelhante a uma Keyblade. Também questionou a comparação porque Duskfade não possui uma estrutura tão ligada aos RPGs.
Outro participante relatou que entrou na demonstração esperando encontrar uma experiência próxima dos jogos de Kingdom Hearts da era PS2, mas terminou o conteúdo sem se sentir convencido. As avaliações positivas da versão completa, porém, fizeram com que considerasse dar uma segunda chance ao título.
A leitura mais precisa apareceu em outro comentário: a divulgação utiliza uma estética capaz de despertar a nostalgia de Kingdom Hearts, mas o jogo funciona, na prática, como uma homenagem aos antigos títulos de plataforma no estilo de Jak and Daxter.
A comparação com Kingdom Hearts faz sentido na direção artística e no clima fantasioso. Quando o controle passa para as mãos do jogador, entretanto, as maiores influências vêm de Jak and Daxter e Ratchet & Clank.
Jogabilidade começa simples, mas continua evoluindo
Zirian possui inicialmente os movimentos esperados de uma aventura do gênero. É possível atacar inimigos, saltar duas vezes e executar um impulso aéreo para alcançar plataformas mais distantes.
Os cenários reúnem cristais, passagens alternativas, objetos escondidos e pequenas arenas que bloqueiam o avanço até que todos os adversários sejam derrotados. Nas primeiras horas, o jogo permanece bastante fiel às convenções dos antigos títulos de plataforma.
O diferencial aparece conforme novas habilidades são desbloqueadas. Um gancho permite alcançar pontos antes inacessíveis, enquanto uma prancha transforma determinadas travessias em sequências sobre trilhos. Posteriormente, um planador amplia ainda mais as possibilidades de exploração.
Esses recursos não ficam restritos aos mundos em que são apresentados. Regiões visitadas anteriormente escondem caminhos, itens e desafios que somente podem ser alcançados depois da obtenção das novas ferramentas.
A campanha possui uma progressão predominantemente linear, mas oferece liberdade suficiente para quem deseja procurar todos os colecionáveis. Quem estiver interessado apenas na história poderá avançar sem grandes obstáculos, enquanto os jogadores que buscam completar tudo terão motivos para retornar aos mundos anteriores.
Ausência de um mapa prejudica a exploração
A grande quantidade de elementos visuais ajuda a tornar os cenários vivos, mas também pode dificultar a orientação. Cores fortes, objetos, plataformas e estruturas mecânicas frequentemente dividem o mesmo espaço.
A ausência de um mapa se torna especialmente incômoda durante as visitas posteriores. Encontrar um item restante ou lembrar quais caminhos ainda não foram explorados pode exigir mais tempo do que deveria.
Também existe uma diferença considerável entre as primeiras impressões deixadas pela demonstração e a experiência completa. Os comentários do Reddit mostram que alguns jogadores consideraram o começo básico ou pouco marcante. A campanha melhora quando as habilidades de movimentação passam a ser combinadas e os mundos ganham estruturas mais elaboradas.
Vale a pena jogar Duskfade?
Duskfade não esconde o desejo de recriar a sensação dos jogos de plataforma da geração PlayStation 2. Sua principal qualidade está justamente na maneira como recupera esse formato sem depender exclusivamente da nostalgia.
A movimentação responsiva, a evolução constante das habilidades e o incentivo à exploração sustentam a aventura. Ao mesmo tempo, a história utiliza relógios e mecanismos para tratar de perdas, amadurecimento e aceitação com mais sensibilidade do que sua aparência inicialmente sugere.
Quem procurar um novo Kingdom Hearts poderá estranhar a falta de elementos profundos de RPG. Para os fãs de Jak and Daxter, Ratchet & Clank e das aventuras tridimensionais do começo dos anos 2000, entretanto, Duskfade entrega uma homenagem sincera, colorida e com personalidade suficiente para movimentar seus próprios ponteiros.


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