O mundo dos mangás perdeu um de seus nomes históricos. Tetsuya Chiba, artista japonês conhecido por seu trabalho em Ashita no Joe, morreu aos 87 anos. A morte foi anunciada nesta terça-feira (27), após o artista falecer em 22 de outubro, em um hospital de Tóquio, no Japão.

Com uma carreira de aproximadamente sete décadas, Chiba construiu uma trajetória marcada por histórias de esporte, superação e conflitos humanos. Seu trabalho ajudou a consolidar o mangá esportivo como um gênero capaz de abordar questões sociais e emocionais, conquistando leitores para além do público tradicional das histórias em quadrinhos.

Em 2024, o artista se tornou o primeiro mangaká a receber a Ordem da Cultura, uma das mais importantes honrarias concedidas pelo governo japonês. O reconhecimento destacou a contribuição de Chiba para a cultura do país e para a valorização dos quadrinhos como expressão artística.

A história de Ashita no Joe

Publicado originalmente entre 1968 e 1973, Ashita no Joe é considerado um dos mangás esportivos mais importantes da história japonesa. A obra foi ilustrada por Tetsuya Chiba e escrita por Asao Takamori, conhecido pelo pseudônimo Ikki Kajiwara.

A trama acompanha Joe Yabuki, um jovem órfão que cresce em meio a dificuldades e encontra no boxe uma oportunidade de mudar de vida. Impulsivo e frequentemente envolvido em conflitos, o protagonista precisa aprender a lidar com a disciplina do esporte enquanto enfrenta adversários cada vez mais fortes.

O diferencial da obra está na maneira como apresenta o boxe não apenas como uma competição, mas também como um caminho de transformação pessoal. A pobreza, a desigualdade, a rivalidade e os sacrifícios necessários para alcançar um objetivo fazem parte da jornada de Joe.

A narrativa também ficou conhecida por evitar a idealização de seu protagonista. Joe é um personagem contraditório, que comete erros e precisa enfrentar as consequências de suas escolhas. Essa construção contribuiu para tornar a história emocionalmente marcante e ajudou a estabelecer novos parâmetros para os mangás esportivos.

O sucesso levou a duas adaptações televisivas de anime. A primeira estreou em 1970, enquanto a segunda chegou à televisão em 1980. A franquia também ganhou filmes animados e permaneceu relevante mesmo décadas após o encerramento da publicação original.

Um legado que influenciou outros animes

A influência de Ashita no Joe pode ser percebida em diferentes produções que vieram depois. Um exemplo é Megalobox, anime lançado em 2018 como parte das celebrações dos 50 anos da obra original.

Ambientada em um futuro no qual lutadores utilizam equipamentos mecânicos para aprimorar suas habilidades no ringue, a série apresenta uma história própria, mas preserva elementos que marcaram o clássico: personagens marginalizados, rivalidades intensas e a luta por reconhecimento.

Outro episódio que demonstra a força cultural de Ashita no Joe ocorreu após a morte de Toru Rikiishi, um dos principais rivais de Joe. O acontecimento provocou uma reação tão intensa entre os leitores que fãs organizaram uma cerimônia fúnebre simbólica para o personagem fictício.

O episódio tornou-se um dos exemplos mais conhecidos da relação emocional estabelecida entre o público e os personagens dos mangás japoneses.

Carreira começou na adolescência

Nascido em Tóquio, em 11 de janeiro de 1939, Tetsuya Chiba iniciou sua carreira profissional em 1956, aos 17 anos. Ao longo dos anos, trabalhou em diferentes gêneros e desenvolveu histórias que exploravam universos como o esporte, a aventura e o cotidiano.

Além de Ashita no Joe, o artista ficou conhecido por títulos como Harris no Kaze, Ore wa Teppei, centrado no kendô, e Notari Matsutaro, ambientado no universo do sumô.

Sua trajetória também foi marcada pelo trabalho de incentivo a novos artistas. Chiba presidiu a Associação de Cartunistas do Japão e teve seu nome associado a iniciativas voltadas à descoberta de novos talentos do mangá.

Nos últimos anos, continuou trabalhando em Hinemosu Notari Nikki, mangá autobiográfico iniciado em 2015, no qual compartilhava lembranças e experiências pessoais. A publicação foi suspensa em setembro de 2026 por questões de saúde.

Segundo informações divulgadas pela imprensa japonesa, Chiba morreu em decorrência de uma síndrome mielodisplásica, doença que afeta a produção de células sanguíneas na medula óssea. O funeral foi realizado de maneira reservada, com a presença de familiares.

A importância de Tetsuya Chiba para a cultura japonesa

A morte de Tetsuya Chiba representa a despedida de um artista que ajudou a transformar o mangá em uma das expressões culturais mais reconhecidas do Japão. Sua contribuição não se limitou ao sucesso comercial: suas histórias demonstraram como personagens imperfeitos, enfrentando dificuldades reais, poderiam conquistar gerações de leitores.

Por meio de Joe Yabuki, Chiba ajudou a construir uma narrativa sobre ambição, fracasso, rivalidade e persistência. Mesmo décadas depois de sua publicação, Ashita no Joe continua sendo lembrado como uma obra fundamental para compreender a evolução dos mangás esportivos.

O artista deixa um legado que permanece vivo nas páginas de seus trabalhos, nas adaptações para anime e nas produções que continuam encontrando inspiração nos caminhos abertos por sua geração.