Eu não fui até a Casablanca porque precisava assistir a um filme.
Em 2026, dificilmente alguém precisa sair de casa para isso. A televisão está conectada à internet, existem dezenas de serviços de streaming e, em poucos segundos, podemos pesquisar um título e começar a assistir. Pelo menos quando o filme que queremos está disponível em alguma das plataformas que assinamos.
Eu fui até lá porque queria descobrir como é entrar em uma locadora de filmes em pleno 2026.
E bastaram alguns segundos dentro da Casablanca para perceber que aquela visita tinha muito menos a ver com assistir a um DVD do que eu imaginava.
Era um pequeno flashback.
Uma experiência que praticamente desapareceu
Entrar em uma locadora novamente é estranho.
Não de uma maneira ruim. Muito pelo contrário.
As paredes cobertas por filmes, as capas expostas, as prateleiras divididas por gêneros e aquela necessidade quase automática de andar pelos corredores olhando título por título despertam uma memória que nenhuma interface de streaming consegue reproduzir.
Quem viveu a época das locadoras provavelmente lembra do ritual.
Você não abria um aplicativo.
Você saía de casa.
Chegava à locadora sem necessariamente saber o que queria assistir e começava a procurar. Pegava uma caixa, lia a sinopse atrás, devolvia para a prateleira. Encontrava outro filme. Perguntava se era bom. Discutia com quem estava junto.
E eventualmente fazia uma escolha.
Pode parecer exagero, mas havia alguma coisa especial nisso.
Hoje podemos passar 20 minutos navegando por catálogos gigantescos sem escolher absolutamente nada. Na locadora, curiosamente, olhar fisicamente para aquelas centenas de capas dá vontade de assistir a praticamente tudo.
A última locadora de Cascavel
A Casablanca não apareceu agora como algum negócio retrô criado para explorar a nostalgia.
Ela sobreviveu.
A história começou em 1990, quando a locadora abriu as portas com um acervo inicial de cerca de 160 títulos. Décadas depois, atravessou mudanças de formato, crises econômicas, pirataria, internet e finalmente a transformação que parecia destinada a acabar definitivamente com esse tipo de negócio: o streaming.
Hoje, a Casablanca permanece na Avenida Brasil e é apontada como a última videolocadora em funcionamento de Cascavel. Uma reportagem publicada pelo Abre Aspas registrou que seu acervo já ultrapassava 18 mil filmes. (Abre Aspas)
À frente dela está Assis Ricardo, proprietário da Casablanca e figura praticamente inseparável da locadora. Não é difícil perceber que manter um estabelecimento desses funcionando depois de mais de três décadas exige algo além de simplesmente vender um serviço.
É resistência mesmo.
Uma loja congelada no tempo — mas não completamente
Talvez a parte mais interessante da visita seja perceber esse contraste.
Por um lado, entrar na Casablanca parece uma viagem para os anos 1990 ou 2000. Por outro, ela precisou mudar justamente para conseguir permanecer aberta em 2026.
Porque existe um problema bastante óbvio em tentar alugar DVDs atualmente:
muita gente nem sequer tem mais um aparelho de DVD em casa.
A Casablanca encontrou uma solução quase inacreditavelmente simples.
Além de alugar o filme, Assis também disponibiliza o aparelho de DVD para o cliente.
A ideia surgiu durante a pandemia. Segundo Assis contou em reportagem sobre a locadora, são dezenas de aparelhos disponíveis e o equipamento é cedido ao cliente sem cobrança adicional.
É uma adaptação curiosa.
Em vez de exigir que o público ainda tenha a tecnologia necessária para consumir seu produto, a própria locadora fornece a tecnologia.
Você escolhe o filme, leva o DVD e, se precisar, leva também o aparelho.
Em 2026.
O algoritmo aqui é uma pessoa
Mas existe outra diferença que talvez seja ainda maior.
Quando entro na Netflix, Disney+, Prime Video ou qualquer outro serviço, existe um algoritmo tentando descobrir aquilo que provavelmente vou querer assistir.
Ele sabe o que eu assisti, onde parei, quais gêneros consumo e quais produções pessoas com hábitos parecidos com os meus também assistiram.
Na Casablanca, o algoritmo se chama Assis.
Você pode simplesmente perguntar sobre um filme.
Pode dizer do que gosta.
Pode procurar algo específico.
Pode conversar sobre cinema.
É uma experiência extremamente analógica em uma época na qual praticamente toda nossa relação com entretenimento passou a ser intermediada por sistemas de recomendação.
E talvez justamente por isso seja tão divertida.
As capas fazem diferença
Uma coisa que eu não esperava sentir tanta falta era simplesmente olhar para capas de filmes.
Hoje elas viraram pequenos retângulos dentro de uma interface.
Na locadora, voltam a ser parte da experiência.
Você encontra filmes que tinha esquecido que existiam. Reconhece atores. Lembra de algo que assistiu quando era criança. Descobre produções porque a capa chamou atenção.
E existe uma sensação particularmente curiosa quando você encontra um filme que marcou alguma fase da sua vida.
Por alguns segundos, você não está mais em 2026.
Você lembra onde assistiu, com quem estava ou simplesmente de uma época em que escolher um filme para o fim de semana era um pequeno evento.
Foi provavelmente a sensação que mais tive durante a visita.
Nostalgia.
Não aquela nostalgia fabricada que virou estratégia de marketing para vender remakes, consoles retrô e relançamentos.
É uma nostalgia involuntária.
Ela simplesmente acontece.
O streaming venceu. Mas perdemos alguma coisa no caminho
Seria absurdo tentar argumentar que alugar um DVD é mais prático do que assistir a um filme pela internet.
Não é.
O streaming venceu essa disputa por motivos bastante óbvios.
É mais rápido, mais confortável e colocou milhares de produções a poucos cliques de distância.
Mas visitar a Casablanca me fez perceber que, ao ganhar toda essa praticidade, também abandonamos uma experiência.
A locadora transformava assistir a um filme em algo que começava antes do filme.
Existia o caminho até o estabelecimento, a procura pelas prateleiras, a discussão sobre qual título levar e aquela sensação de sair segurando a caixa do filme escolhido.
Hoje apertamos um botão.
É infinitamente mais eficiente.
Só não é necessariamente tão memorável.
Vale a pena visitar uma locadora em 2026?
Se a pergunta for apenas se é a maneira mais conveniente de assistir a um filme, evidentemente não.
Mas essa também seria a pergunta errada.
Visitar a Casablanca hoje é interessante justamente porque ela representa uma experiência que praticamente desapareceu.
Para quem cresceu alugando filmes, é um reencontro.
Para quem nasceu depois do auge das videolocadoras, talvez seja ainda mais curioso: é a oportunidade de conhecer fisicamente uma maneira completamente diferente de consumir cinema.
Saí de lá pensando que a Casablanca deixou de ser apenas uma locadora há bastante tempo.
Ela virou uma pequena cápsula do tempo no meio de Cascavel.
Uma sobrevivente de uma época em que sexta-feira à noite podia começar diante de uma parede cheia de DVDs, escolhendo cuidadosamente qual história levar para casa.
E depois de visitar uma locadora novamente em 2026, admito:
eu não lembrava o quanto era divertido escolher um filme assim.


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