Poucos projetos derivados de Os Cavaleiros do Zodíaco conseguiram conquistar os fãs de forma tão intensa quanto Saint Seiya: The Lost Canvas. A história criada por Shiori Teshirogi apresentou uma nova versão da Guerra Santa entre Atena e Hades, ambientada cerca de 200 anos antes dos acontecimentos da série clássica, e chamou atenção principalmente pelo desenvolvimento dos Cavaleiros de Ouro, pela qualidade da animação e por uma narrativa mais dramática.
O problema é que, apesar da popularidade conquistada em países como o Brasil, o anime parou justamente quando a história começava a entrar em uma de suas partes mais importantes.
Produzido pela TMS Entertainment, o anime teve 26 episódios, divididos em duas temporadas de 13 episódios. A primeira leva começou a ser lançada em 2009, enquanto a segunda chegou ao público em 2011. O último episódio foi lançado em 20 de julho daquele ano.
Desde então, os fãs esperam por uma terceira temporada que nunca aconteceu.
E o mais frustrante é que o mangá já estava completo e havia material de sobra para continuar a adaptação.
Uma história ambientada 200 anos antes
The Lost Canvas funciona como uma espécie de releitura da Guerra Santa contra Hades.
A trama acompanha Tenma, Alone e Sasha, três amigos que cresceram juntos em um pequeno vilarejo europeu. O destino, entretanto, transforma completamente a vida dos três.
Tenma se torna o Cavaleiro de Pégaso. Sasha descobre ser a reencarnação de Atena. Já Alone acaba assumindo a identidade de Hades.
A partir daí, a amizade entre os três é destruída pelo conflito entre os deuses.
A história se passa no século XVIII e apresenta uma geração completamente diferente de Cavaleiros, incluindo versões próprias dos personagens que os fãs conhecem da obra original.
É justamente aí que The Lost Canvas ganhou uma de suas maiores forças.
Em vez de simplesmente colocar Seiya, Shiryu, Hyoga, Ikki e os demais personagens clássicos novamente em cena, a obra construiu uma geração anterior, permitindo explorar novos Cavaleiros de Ouro e suas histórias.
A própria TMS registra oficialmente a produção como uma obra de 26 episódios, com direção de Osamu Nabeshima e animação da Tokyo Movie, atualmente parte da TMS Entertainment.
O anime começou em um formato diferente
Um dos pontos importantes para entender o fim da produção está no próprio formato escolhido.
The Lost Canvas não foi produzido inicialmente como uma série tradicional de televisão.
A animação foi lançada como OVA, sigla para Original Video Animation, com distribuição voltada principalmente ao mercado de vídeo doméstico.
Isso significa que a produção tinha uma lógica comercial diferente de um anime semanal exibido na televisão.
A primeira temporada teve 13 episódios e a segunda outros 13, totalizando os 26 capítulos que existem atualmente. O material foi lançado em DVD e Blu-ray, e posteriormente recebeu distribuição internacional e serviços de streaming.
Na prática, portanto, não bastava que a série fosse popular entre os fãs.
Era necessário que o projeto apresentasse retorno financeiro suficiente para justificar a produção de uma nova leva de episódios.
E foi justamente nesse ponto que surgiram os problemas.
O anime não teve o desempenho esperado no Japão
A principal explicação apontada ao longo dos anos para o encerramento da produção está no desempenho comercial de The Lost Canvas no Japão.
Em 2012, Manuel Guerrero, gerente da distribuidora espanhola Selecta Visión, afirmou durante um evento em Barcelona que havia conversado com a TMS e recebido a informação de que uma terceira temporada não seria produzida.
Segundo o relato, o desempenho da produção no Japão não havia sido satisfatório, enquanto a série também não apresentava força suficiente no mercado europeu para compensar os investimentos.
O detalhe curioso é que a situação era diferente na América Latina.
A série encontrou uma recepção muito mais entusiasmada entre os fãs latino-americanos, especialmente no Brasil. O problema é que esse sucesso não foi suficiente para sustentar sozinho os custos de uma nova temporada.
Essa diferença entre a recepção japonesa e a latino-americana acabou se tornando um dos grandes motivos da frustração dos fãs.
"Mas Lost Canvas fez muito sucesso no Brasil. Por que isso não foi suficiente?"
Essa talvez seja a pergunta mais frequente entre os fãs brasileiros.
A resposta está na maneira como uma produção japonesa desse tipo é financiada e avaliada.
Popularidade internacional não significa necessariamente rentabilidade suficiente para bancar uma nova temporada.
No caso de The Lost Canvas, o mercado japonês continuava sendo fundamental para a recuperação do investimento realizado na produção dos OVAs.
A América Latina possuía uma enorme base de fãs, mas o modelo comercial da época não conseguia transformar toda essa audiência em receita suficiente para financiar uma nova temporada.
Isso explica uma situação aparentemente contraditória:
The Lost Canvas podia ser um grande sucesso entre os fãs brasileiros e, ao mesmo tempo, ser considerado um projeto comercialmente insuficiente para receber novos episódios.
Relatos publicados na época indicavam justamente essa diferença: a obra possuía uma audiência expressiva na América Latina, mas o desempenho no Japão não justificava a continuidade da produção.
A história acabou no meio da Guerra Santa
E aqui está uma das partes mais dolorosas para quem acompanhou o anime.
Os 26 episódios não encerram a história de The Lost Canvas.
O anime termina enquanto a Guerra Santa ainda está acontecendo.
No final da segunda temporada, Tenma, Dohko, Shion e os demais personagens ainda estão envolvidos diretamente no conflito contra Hades.
Ou seja, não houve um encerramento planejado para a animação.
A produção simplesmente parou.
O próprio material oficial da TMS confirma que a obra possui 26 episódios, enquanto a história original em mangá continuou muito além do ponto alcançado pelo anime.
É por isso que quem assiste somente ao anime fica com a sensação de que faltou uma parte gigantesca da história.
E faltou mesmo.
O mangá, porém, continuou até o fim
A boa notícia para os fãs é que a história de The Lost Canvas foi concluída no mangá.
A publicação de Shiori Teshirogi teve mais de 200 capítulos reunidos em 25 volumes.
Depois, a autora ainda desenvolveu The Lost Canvas Gaiden, série derivada dedicada a histórias individuais de diversos Cavaleiros de Ouro.
Ou seja, existe uma quantidade enorme de material que poderia ter sido transformado em animação.
O problema nunca foi falta de conteúdo.
A própria JBC confirmou, em material sobre a publicação brasileira, que o mangá original possui mais de 200 capítulos distribuídos em 25 volumes e que a adaptação animada de 26 episódios não conseguiu adaptar toda a história.
E por que não fizeram uma terceira temporada mais tarde?
É aqui que a história fica ainda mais complicada.
Com o passar dos anos, o mercado de anime mudou completamente.
Quando The Lost Canvas foi produzido, o mercado de DVDs e Blu-rays ainda tinha importância significativa para determinados projetos. Atualmente, serviços de streaming conseguem financiar e distribuir produções para o mundo inteiro.
Isso poderia, teoricamente, tornar uma continuação mais viável.
Mas existe outro problema: os direitos e a organização da franquia Saint Seiya.
The Lost Canvas foi produzido pela TMS, enquanto a franquia principal de Cavaleiros do Zodíaco possui uma longa história de gerenciamento de direitos envolvendo diferentes empresas e o criador Masami Kurumada.
Em entrevista mencionada em fontes brasileiras, Nelson Sato, presidente da Sato Company, também afirmou que Kurumada não havia renovado com a TMS os direitos necessários para a continuidade da adaptação animada.
Isso adicionou mais uma barreira à produção de uma terceira temporada.
Portanto, não existe uma explicação simples como "o anime foi ruim" ou "não havia história".
A interrupção envolveu principalmente questões comerciais, desempenho no mercado japonês e também questões relacionadas aos direitos da adaptação.
E a popularidade brasileira?
Esse é talvez o aspecto mais curioso de toda a história.
No Brasil e em outros países da América Latina, The Lost Canvas conseguiu construir uma comunidade extremamente apaixonada.
A obra chegou a ser exibida na televisão brasileira e ganhou lançamentos em DVD, além de posteriormente aparecer em serviços de streaming.
A recepção também ajudou a manter o interesse pelo mangá, que acabou sendo publicado integralmente no país.
Isso fez com que surgisse uma situação incomum:
quanto mais os fãs brasileiros descobriam e gostavam da obra, mais difícil parecia ser entender por que ela não continuava.
Para o público, existia demanda.
Para a produtora, porém, a conta precisava fechar em escala internacional.
A própria história merecia uma continuação
Outro fator que tornou o cancelamento ainda mais frustrante foi a qualidade do material produzido.
The Lost Canvas conseguiu algo que várias outras produções da franquia tentaram fazer: transformar os Cavaleiros de Ouro em protagonistas de histórias individuais.
Personagens como Albafica, Manigoldo, El Cid, Asmita, Kardia, Degel e outros ganharam personalidades e histórias próprias.
Isso permitiu que o público enxergasse os Cavaleiros de Ouro de uma maneira completamente diferente.
Além disso, a animação foi bastante elogiada pelos fãs por apresentar batalhas visualmente elaboradas e uma identidade própria.
A série também conseguiu funcionar relativamente bem para quem não conhecia profundamente a obra original, justamente por apresentar uma história ambientada séculos antes da saga de Seiya.
A autora também lamentou a falta de uma terceira temporada
Shiori Teshirogi demonstrou em diferentes ocasiões carinho pela adaptação de sua obra.
Ela participou do processo de produção e chegou a escrever material para cenas adicionadas especificamente ao anime.
Também lamentou que a TMS não tivesse produzido uma terceira temporada, segundo registros reunidos sobre a produção.
Isso reforça outro ponto importante: não foi uma decisão criativa da autora de encerrar a história naquele momento.
O mangá continuou.
O anime é que parou.
Afinal, The Lost Canvas foi cancelado?
A resposta mais correta depende de como a palavra "cancelado" é utilizada.
A produção de novos episódios foi interrompida e não existe uma terceira temporada produzida.
Fontes especializadas brasileiras tratam a série como cancelada no Japão e registram que não há previsão para uma terceira temporada.
Ao mesmo tempo, a TMS não mantém atualmente uma continuação em produção.
Portanto, para o fã que pergunta "quando sai a terceira temporada?", a resposta prática é:
não há uma terceira temporada anunciada.
Poderia voltar algum dia?
Em teoria, sim.
Na prática, seria necessário que vários fatores se alinhassem.
Uma plataforma de streaming poderia demonstrar interesse em financiar uma nova adaptação. Os detentores dos direitos precisariam autorizar a produção. A TMS ou outro estúdio teria que assumir o projeto, e seria necessário avaliar se existe público suficiente para justificar o investimento.
O mercado atual é muito diferente daquele de 2009.
Hoje, uma obra com uma comunidade internacional forte pode ter uma estratégia de distribuição completamente diferente daquela baseada exclusivamente em vendas de mídia física.
Isso significa que uma continuação não é impossível do ponto de vista técnico.
Mas isso também não significa que ela esteja sendo produzida.
Até o momento, não há anúncio oficial de uma terceira temporada.
O que uma terceira temporada teria adaptado?
Essa é uma das maiores curiosidades para quem assistiu apenas ao anime.
O mangá possui material suficiente para render várias temporadas adicionais.
Os 26 episódios correspondem somente a uma parcela da história.
A partir do ponto em que o anime terminou, a Guerra Santa fica ainda maior, com novas batalhas, revelações sobre os personagens e confrontos envolvendo praticamente toda a geração de Cavaleiros apresentada por Teshirogi.
E é justamente por isso que o encerramento do anime é tão frustrante.
Não estamos diante de uma obra que simplesmente chegou ao final.
Estamos diante de uma adaptação que parou antes de concluir a história que pretendia contar.
The Lost Canvas continua sendo um dos grandes "e se?" de Cavaleiros do Zodíaco
Mais de uma década depois do lançamento do último episódio, The Lost Canvas continua sendo lembrado pelos fãs como um dos maiores projetos inacabados da franquia.
A situação pode ser resumida em quatro pontos:
O mangá foi concluído; O anime teve apenas 26 episódios; A produção não apresentou desempenho comercial suficiente no Japão para justificar a continuidade; Questões relacionadas aos direitos também dificultaram uma nova temporada.
O curioso é que a obra encontrou justamente fora do Japão uma parcela importante de seu público.
No Brasil, especialmente, The Lost Canvas permanece extremamente popular.
Por isso, a pergunta continua sendo feita até hoje:
será que algum dia veremos Tenma, Sasha, Alone e os Cavaleiros de Ouro de The Lost Canvas novamente animados?
Por enquanto, a resposta é não.
Mas existe uma diferença importante entre dizer que "não existe terceira temporada" e afirmar que "ela jamais poderá existir".
A primeira afirmação é um fato.
A segunda seria uma previsão.
E, enquanto os direitos puderem ser reorganizados e houver interesse comercial, a história de The Lost Canvas permanece como uma das poucas grandes sagas de Cavaleiros do Zodíaco que ainda poderia voltar para as telas.
Para quem não quer esperar por uma possibilidade que pode nunca acontecer, o caminho é o mangá: é nele que a história de Tenma, Sasha, Alone e dos Cavaleiros de Ouro realmente chega ao fim.


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