Uma produção independente japonesa vem chamando atenção pela maneira como combina animação tradicional em 2D com cenários registrados no mundo real. Trata-se de âme/rité, curta produzido pelo Studio Sample que coloca personagens de anime e um monstro devorador de humanos em meio a imagens reais da cidade de Yamagata, no Japão.
Lançado no início de agosto, o curta já havia ultrapassado 40 mil visualizações quando o Anime Trending publicou uma entrevista com o diretor Killer Washing Machine. A produção também conta com animação de Nekoless, formando uma equipe de apenas duas pessoas à frente do Studio Sample.
A proposta nasceu justamente da experiência dos dois integrantes. Enquanto Killer Washing Machine já havia trabalhado com filmes em live-action durante a faculdade, Nekoless atuava com desenhos e animação. A ideia foi unir as duas especialidades para criar uma obra que aproveitasse as possibilidades dos dois formatos.
O diretor explicou que uma das motivações para utilizar cenários reais foi justamente fugir da estética que costuma aparecer em determinadas produções independentes que utilizam esse recurso. Em vez de simplesmente colocar personagens desenhados sobre fotografias, a equipe buscou uma abordagem mais cinematográfica, trabalhando profundidade, arquitetura e composição das cenas.
As imagens de fundo foram captadas na cidade de Yamagata, incluindo locais que também aparecem em outras produções japonesas. Segundo o diretor, algumas escolhas nasceram simplesmente do desejo de registrar determinados lugares e depois construir cenas que aproveitassem suas características.
Para realizar as gravações, a equipe utilizou uma Sony ZV-E10, acompanhada de lentes fixas Sigma de 55 mm e 70 mm. As lentes foram escolhidas, entre outros motivos, pela possibilidade de criar profundidade por meio do desfoque dos cenários reais.
A influência de Kizumonogatari também aparece no projeto. Killer Washing Machine explicou que estudou a forma como a obra combina elementos tridimensionais realistas com desenhos 2D mais planos. Para ele, o interessante está justamente no fato de os dois elementos não parecerem completamente integrados.
Essa diferença foi preservada propositalmente em âme/rité. Em vez de tentar fazer os personagens parecerem parte natural das imagens reais, a equipe manteve a textura plana dos desenhos. O objetivo era criar uma sensação visual particular, deixando uma espécie de estranhamento entre o mundo real e os personagens animados.
A produção também exigiu uma maneira diferente de trabalhar o storyboard. O processo começou com um storyboard textual, seguido pela captura das imagens reais e, posteriormente, pela construção do storyboard visual. Como os cenários já estavam disponíveis nessa etapa, a equipe conseguiu trabalhar com maior precisão a posição dos personagens e os enquadramentos.
Por outro lado, havia uma limitação: depois que determinado cenário era fotografado, mudanças significativas na composição se tornavam mais difíceis. Por isso, cada escolha de enquadramento precisava ser pensada considerando desde o início como o resultado final seria utilizado.
A equipe também optou pelo formato CinemaScope, explorando espaços amplos nas laterais dos personagens e enquadramentos com bastante profundidade. A intenção era fazer com que determinadas imagens pudessem funcionar quase como ilustrações independentes, em vez de apenas servir para descrever uma ação.
Na etapa de composição, realizada no After Effects, outro cuidado foi necessário: evitar que os personagens fossem “engolidos” pela quantidade de informação existente nos cenários reais. Por isso, os responsáveis mantiveram deliberadamente a aparência plana dos desenhos.
O curta acompanha as personagens Shintani e Aya Kuronjo em uma história envolvendo um monstro. Shintani, apesar de ter oficialmente 1,60 metro de altura, aparenta ter cerca de 1,75 metro por utilizar plataformas de 15 centímetros. A escolha foi feita para que ela se destacasse visualmente no ambiente e permitisse determinadas composições com a outra protagonista.
As diferenças entre as duas também aparecem no design. Shintani prefere roupas em tons mais neutros, enquanto Kuronjo utiliza peças associadas a marcas esportivas. A equipe utilizou essas características para reforçar visualmente as diferenças de personalidade entre as personagens.
Além da proposta visual, âme/rité ganhou legendas em diversos idiomas. A equipe preparou versões em inglês e, posteriormente, utilizou esse material como base para traduções automáticas para outras línguas, buscando alcançar espectadores de diferentes regiões onde o anime possui público.
E o projeto não deve terminar no curta. O Studio Sample já trabalha em Hikari, uma sequência que terá ligação direta com a cena pós-créditos de âme/rité. Shintani continuará como protagonista, mas a continuação apresentará uma nova personagem e um novo monstro.
Segundo o diretor, Hikari terá uma escala maior e uma qualidade visual mais ambiciosa. A equipe também pretende utilizar a experiência adquirida durante a produção do primeiro curta para melhorar o processo de trabalho e lidar com uma produção mais longa.
A trajetória de âme/rité mostra como produções independentes podem experimentar diferentes formas de unir animação e filmagem tradicional. No caso do Studio Sample, a combinação entre personagens 2D e os cenários reais de Yamagata não foi utilizada apenas como uma solução de produção, mas como parte da própria identidade visual da obra.
Com Hikari já em desenvolvimento, o Studio Sample agora pretende ampliar essa proposta e levar a mistura entre animação desenhada e ambientes reais para uma produção ainda maior.


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